
Da esquerda para a direita, na primeira fila: Derrel Santee, John Betts, Marion Way, Anita Way. Segunda fila: Edith Long Schisler, Francis Tims, Gladys Betts, Phyllis Reily, Wilma Roberts. Terceira fila: Maria Delci Smith, Paloma Goodwin, Dorothy Santee, Steve Newnum, Maria Newnum. Última fila: Ed Tims, Donald Raffan, Jim Goodwin, Stan Fry, “Pete” Peterson Steve. Esta
foto realizada durante o Encontro de Missionários e Missionárias da
Igreja Metodista, que aconteceu em novembro de 2006, em Florianópolis.
Durante cinco dias, o grupo compartilhou de devocionais, momentos de
louvor e reflexões sobre a sociedade e a Igreja. “A língua nativa
muitas vezes cedeu lugar ao português, que surgia sem que as pessoas se
dessem conta que haviam mudado de idioma, o que mostra a profunda
aculturação desses homens e mulheres que mesmo, após findado o tempo de
serviço, decidirampermanecer no país que também consideram suapátria. A
necessidadede ampliar o ensino no campo da unidade cristã e das raízes
metodistas e wesleyanas foram debatidas e apontadas como desafio das
lideranças da Igreja Metodista”, conta Maria Newnum.
No
dia 02 de setembro de 2007 a Igreja Metodista celebrou 77 anos como
igreja brasileira autônima. Mas a proclamação de sua autonomia, no ano
de 1930, não impediu que continuasse a receber missionários e
missionárias dos Estados Unidos.Nos anos seguintes, muitas
pessoas oriundas da Igreja Metodista Unida dos Estados Unidos – e
também da Alemanha e da Igreja Unida do Canadá – vieram para se unir em
laços fraternos na missão com a Igreja Metodista no Brasil. Hoje, o
número de missionários e missionárias estrangeiros diminuiu
significativamente. A maioria dos que vivem aqui é de aposentados(as)
que escolheram o país como sua casa.
No contexto
atual, é a Igreja Metodista brasileira que envia pessoas para fora...
em número pequeno, é verdade, mas, ainda assim, invertendo a realidade
do passado. Além disso, com a nomeação de pessoas formadas pelos
seminários regionais para as funções de “missionários designados”,
diminuiu a necessidade de ter gente de fora.
Mas, quais são as
experiências e reflexões daqueles e daquelas que dedicaram suas vidas
servindo aqui no Brasil? Infelizmente não foi possível localizar
alguns. Outros(as) já foram recolhidos pelo Pai. Compartilhamos aqui
três histórias, a partir das quais nos lembramos que a Igreja não é
feita de edificações ou números no rol de membros: a Igreja é
constituída por pessoas, irmãs e irmãos amados por Deus, gente que
merece consideração, respeito e carinho.
O primeiro relato
é de um casal missionário aposentado que escreveu dos Estados Unidos, a
segunda é de um missionário que voltou para os Estados Unidos, mas
depois de algum tempo resolveu escolher o Brasil como seu lar e a
terceira é do próprio autor desta reportagem: o pastor Stephen Newnum,
o “Steve”, missionário americano que está ativo no Brasil.
Poeira vermelha
O Rev. Raymond
Noah e sua esposa Cleo, que agora vivem em Kansas e têm um dos seus
filhos no Brasil, trabalhando em Londrina, escreveram:
Eu e minha
esposa Cleo escolhemos ir ao Brasil quando voltamos aos Estados Unidos,
em 1965, depois de servirmos na África. O Bispo Wilbur Smith nos
convidou a “enfrentar as nuvens de pó para levar o Evangelho a uma área
inteiramente nova”. Nossa nomeação (janeiro de 1967) era para viver em
Cascavel, estabelecer uma Igreja Metodista lá e qualquer outro lugar
dentro um raio de 150 km no parte oeste do estado do Paraná. Também
incluiu a igreja em Laranjeiras do Sul, 150 km ao leste de Cascavel que
não tinha um pastor em dez anos. Estávamos familiarizados com as
“nuvens de pó” do Kansas e das viagens nas estradas em Angola e
Zimbábue. Mas o pó vermelho do Paraná superou os demais!
Na África,
nossa experiência era trabalhar na Missão Central, onde estávamos em
contato quase diário com outros missionários. Assim, para nós foi um
choque forte começar a trabalhar em Cascavel, 300 km distantes de
qualquer missionário da Igreja Metodista, sem automóvel para viagens,
nenhum dinheiro para comprar materiais para uma Escola Dominical ou
outras necessidades por nosso trabalho.
O Bispo nos
enviou dinheiro para comprar um terreno com uma casa velha em Cascavel
que poderia ser usado como um lugar de reunião. Depois de vários meses,
pudemos comprar uma Kombi para viajar. Desnecessário dizer que era um
começo lento. Estávamos em Cascavel sete anos e ao final daquele tempo
uma congregação metodista foi estabelecida em Cascavel com uma capela
nova para adoração. A igreja em Laranjeiras estava crescendo e nós
estávamos visitando 19 outros pontos de pregação em pequenas cidades e
fazendas ao redor de Cascavel, alguns até 100 km de distância. Nossa
segunda nomeação foi para a cidade de Umuarama, com experiências
semelhantes, também servindo em vários outros pontos na área. Nós
servimos lá oito anos.
Hoje, Cleo e
eu estamos ambos com 88 anos de idade e completamos 65 anos de
matrimônio em dezembro. Nosso filho Melvin e sua esposa Fran trabalham
com a OMS em Londrina há 35 anos. Nossos outros três filhos e suas
famílias vivem nos Estados da Flórida, Oregon e West Virginia.
Capela ambulante
Stanley Fry
serviu cinco anos no Brasil, voltou para os Estados Unidos e depois
retornou ao Brasil, após o casamento com Edith Long Schisler,
missionária viúva. Stan conta sua experiência:
Em 1950, a
Igreja Metodista brasileira recebeu seu primeiro contingente de
missionários(as) para América Latina, com contrato de três anos.
Acredito que, dos 50 que foram para América Latina, 18 foram
nomeados(as) para vários lugares no Brasil. Fui nomeado para trabalhar
com Charles Clay, no escritório da Junta Geral de Educação Cristã.
Pediram-me que editasse a pequena brochura promocional chamada “Brazil
Calls” (Brasil Chama), que foi enviada para todas as igrejas nos
Estados Unidos que apoiaram missionários(as).
Igrejas no
estado de Texas que apoiaram trabalhos missionários haviam enviado,
pouco tempo antes, a primeira de duas “capelas ambulantes” que foram
equipadas com jipes com um gerador de força, um projetor e
alto-falantes montados em cima. Ralph Nance era o pastor de Texas que
acompanhou o primeiro destes veículos. Fui nomeado por Charles para
viajar com a capela ambulante como seu técnico. Era meu trabalho manter
o gerador de força, o jipe na estrada e os alto-falantes funcionando
bem.
Como falava
pouco português naquela época, sempre tinha pelo menos um pastor que
viajava comigo para pregar onde quer que fôssemos. Eventualmente pude
fazer alguns dos anúncios públicos dos filmes e pregações nos
alto-falantes enquanto dirigíamos para cima e para baixo nas ruas do
vilarejo durante as tardes.
Os filmes
sobre a Bíblia, higiene, etc. eram mostrados geralmente em uma parede
branca em algum terreno baldio ao anoitecer e, é claro, a noite
terminava com o pastor pregando o evangelho pelos alto-falantes. Uma
vez pastor me mandou dirigir à zona de meretrício local e estacionamos
no fim de uma rua com os alto-falantes apontados rua abaixo e ligados
no alto. As meninas saíram dos seus lugares de negócio e ficaram em pé
acenando e nos chamando, enquanto a pregação continuava.
Numa outra
ocasião, colidimos com a oposição do padre local. Quando chegamos num
vilarejo interiorano disseram-nos que o padre tinha vindo à escola
local para anunciar a todas as crianças que a capela ambulante estava
vindo e que elas deveriam ficar o mais longe possível, porque o Satanás
estava andando na traseira. Desnecessário dizer, quase toda a cidade
veio naquela noite quando os filmes eram projetados e o sermão pregado
na praça central. Mas posso dizer com segurança que eles(as) ficaram
desapontados por não ver nada de Satanás...
Depois fui
nomeado para Itapecerica da Serra e Palmeiras como pastor. Quando
retornei ao Brasil quase quatro anos atrás, descobri que essas duas
igrejas tinham sido fundadas pela Rev. James L. Kennedy, o avô de minha
esposa atual, Edith Long Schisler. Eu retornei lá recentemente e achei
um pequeno museu que exibe vários quadros da antiga Igreja Metodista e
suas congregações, como também o antigo órgão que estava em uso na
igreja quando eu tinha servido lá mais de cinqüenta anos atrás.
Esses foram
anos excitantes na vida da Igreja Metodista do Brasil, que na ocasião
tinha somente 20 anos de autonomia. Foi durante esses cinco anos como
missionário no Brasil que eu fiquei realmente apaixonado com o
evangelho da graça, como ensinado por João Wesley e como pregado na
Igreja Metodista do Brasil. Sem falar de outro fato marcante que foi
meu casamento com minha primeira esposa, a Anita, uma dasmissionárias
para América Latina que lecionou no Instituto Metodista em São Paulo.
Nosso primeiro filho também nasceu durante esses anos e agora trabalha
com dependentes químicos na Cidade de Nova Iorque e com crianças
vivendo com AIDS na África do Sul. Esses anos foram formativos na minha
vida e eu os agradeço.
Coração em duas igrejas
Robert Stephen Newnum, um dos missionários na ativa que hoje vive com sua segunda esposa Maria Newnum, conta:
Quando entrei
com o pedido para ser missionário, a missão nos Estados Unidos desejava
pastores casados com brasileiras que não fossem metodistas. Sem saber
disso, me encaixei diretamente no perfil, já que minha primeira esposa
era católica quando nos casamos. Cheguei ao Brasil em 1980 com a
família, que incluía duas crianças. Viemos os dois como missionários.
Nossa primeira nomeação, depois de 9 meses para eu aprender o português
em Campinas, foi para Joinville, para começar a Igreja Metodista. Fui
sozinho a Joinville fazer os primeiros contatos, arrumar uma casa e
tudo mais. Chegando lá, eu achava que estava falando o português, mas
as pessoas respondiam: “Spreken de Deutch?”, ou seja, “você fala
alemão? Eu fiquei num pânico enorme. Me lembro que um dia, na praça do
correio de Joinville, com a família ainda em Campinas, sentei e
lamentei silenciosamente: Se morresse aquele dia, ninguém ia saber quem
eu era! Estava completamente só. Apesar disso, as coisas foram se
ajeitando. A maneira de ser da Igreja Metodista na Sexta Região foi bem
diferente de minhas experiências anteriores e sentia saudades de um
culto mais “litúrgico”. Mas aos poucos fui me adaptando. Em 1988,
assumi outra nomeação que incluiu responsabilidades como professor no
seminário regional. Desde então, tenho desenvolvido este ministério. Em
1990 adotamos uma filha brasileira, ela trouxe muita alegria. Agora,
minhas três filhas moram nos Estados Unidos. Depois do divórcio,
casei-me em 2000 com Maria, que embora não seja missionária “oficial”,
compartilha todas as minhas paixões e interesses. Amo a Igreja
Metodista, mas me preocupo com certas linhas de ação que acontecem em
vários lugares que aparentemente contradizem a sua trajetória
histórica. Às vezes sinto na pele que pertenço a duas igrejas, a Igreja
Metodista Unida dos Estados Unidos e a Igreja Metodista do Brasil. E há
momentos que concordar com a atuação de uma contradiz outra! Mas amo as
duas e Brasil, que é minha segunda pátria.
Stephen Newnum